Se Eu Pudesse Entrevistar a Juliana de 1889... Por Juliana Hoffmann Liska

 

Se Eu Pudesse Entrevistar a Juliana de 1889...

Por Juliana Hoffmann Liska

Se eu pudesse entrevistar a Juliana de 1889, não começaria perguntando quem ela era.

Eu perguntaria sobre August.

Perguntaria se ela ainda guarda cartas dentro de uma gaveta de madeira escura. Se ainda olha pela janela em tardes de neblina esperando ver uma silhueta surgir ao longe. Perguntaria se o amor sobrevive quando o tempo insiste em passar.

Imagino-a sentada diante de mim, à luz de velas, usando um vestido escuro e segurando um livro aberto sobre o colo. Seus olhos talvez carregassem a mesma melancolia que encontro nos meus poemas.

— Quem foi August? — eu perguntaria.

Talvez ela sorrisse primeiro.

Talvez o silêncio viesse antes da resposta.

Porque existem amores que não cabem em palavras.

Existem pessoas que se transformam em estações do ano dentro de nós.

August poderia ter sido um poeta, um viajante, um sonho ou apenas alguém que passou por sua vida deixando marcas impossíveis de apagar.

— Você o amou? — eu insistiria.

E ela talvez olhasse para a chama da vela antes de responder:

— Algumas pessoas não passam por nossas vidas. Elas permanecem.

Então eu entenderia.

Entenderia por que certas saudades parecem mais antigas do que nossas próprias memórias. Por que algumas histórias nos perseguem mesmo quando não sabemos de onde vieram. Por que escrevemos sobre cartas, relógios antigos, jardins esquecidos e despedidas que nunca aconteceram.

A Juliana de 1889 talvez me contasse que o amor não desaparece. Ele muda de forma.

Transforma-se em poemas.

Em páginas amareladas.

Em lembranças que atravessam séculos.

Em personagens que criamos para continuar conversando com aqueles que perdemos.

Antes de partir, eu faria apenas mais uma pergunta.

— O que aconteceu com August?

E talvez ela sorrisse novamente.

Um sorriso triste, mas sereno.

— Nada — responderia. — Ele continua vivo onde todos os grandes amores sobrevivem.

Nas histórias.

E, desde então, eu compreenderia que talvez meus poemas sejam apenas cartas que a Juliana de 1889 continua escrevendo para August através de mim.

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