Crônica — Os dias de August, França, 1889
Crônica — Os dias de August, França, 1889
Havia em August um silêncio que não se explicava — apenas se sentia. Em 1889, enquanto a França celebrava o progresso, erguia ferros ao céu e iluminava avenidas com o sopro da modernidade, ele caminhava na contramão do entusiasmo. Não por revolta, mas por uma delicadeza antiga, quase fora do tempo.
Morava em um quarto modesto, de janela estreita, por onde o outono entrava sem pedir licença. As folhas dançavam lá fora, e ele as observava como quem lê cartas nunca escritas. Trabalhava pouco, escrevia muito — embora raramente mostrasse suas palavras. Diziam que eram belas, mas tristes. Diziam também que ele via coisas que os outros não viam.
August tinha o olhar de quem já se despediu de algo, mesmo sem saber exatamente do quê.
Pelas manhãs, atravessava ruas ainda úmidas de neblina. Os cafés começavam a encher, vozes surgiam, risos se espalhavam — e ele passava entre tudo isso como uma sombra leve, educada, quase invisível. Sentava-se sempre no mesmo canto, com uma xícara de café esfriando lentamente entre as mãos. Observava. Anotava. Silenciava.
A vida ao seu redor pulsava com pressa, mas dentro dele o tempo era outro — mais lento, mais profundo.
Diziam que August escrevia sobre a morte. Mas não era bem assim. Ele escrevia sobre o intervalo — esse espaço invisível entre o fim e o recomeço. Via beleza no que partia, ternura no que se desfazia. Para ele, o outono não era tristeza: era verdade.
Às vezes, ao entardecer, caminhava até os jardins. Sentava-se sob árvores quase nuas e deixava o vento tocar seu rosto. Havia ali um acordo silencioso entre homem e natureza, como se ambos entendessem que tudo — absolutamente tudo — está apenas de passagem.
Ninguém sabe ao certo como terminou sua história. Alguns dizem que partiu jovem, como suas palavras previam. Outros acreditam que apenas se dissolveu no tempo, tornando-se parte daquilo que tanto observava.
Mas há quem diga — e isso talvez seja o mais bonito — que August nunca foi embora.
Permanece nos outonos,
nos silêncios,
e no olhar de quem aprende, enfim,
a ver a vida mesmo quando ela parece partir.
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